QUAL MARIA ?
O amparo da Lei Maria da Penha a mulheres transexuais, transgêneros e travestis
LEI PARA
Aline Marques
Aline Marques se prostituiu durante 22 anos. Não por preferência, mas por falta de opção. Ela é travesti e conta que, apesar de, na teoria, todos terem oportunidades iguais, não é isso que acontece. "Eu cansei de distribuir currículo, eu cansei de buscar emprego", conta ela. Aos 16 anos de idade, Aline foi para rua para poder se sustentar. "Uma amiga minha me falou 'olha, infelizmente você não recebeu nenhuma proposta até agora. Você vai ter que ir para a rua'. E aí eu fui levando, na verdade, por causa da minha juventude, na esportiva, na brincadeira", lembra ela. "Ao mesmo tempo que aquilo me revoltava, eu tinha que aprender a me conformar, porque eu não ia ter uma outra oportunidade".
Hoje, Aline é articuladora do Centro de Cidadania LGBT da prefeitura de São Paulo e, ainda assim, sofre preconceito por ser trans. No começo do ano, quando teve que ser hospitalizada, a doença não foi o único problema: "Eles não queriam me chamar pelo meu nome social, queriam me chamar pelo nome do RG", lembra. "Minha chefe foi lá, falou que eu prestava serviço para a prefeitura, aí que eles baixaram a bola, mas será que eu tinha que ser uma pessoa que presta serviço para a prefeitura para ser respeitada?", reflete.
Também com a família Aline teve problemas para ser aceita. A mãe, sempre muito violenta com ela, não lidou bem, assim como os irmãos. Uma tia que cuidou dela quando o pai morreu e a mãe - portadora de necessidades especiais - não tinha condições de tomar conta sozinha dos filhos, foi a familiar mais preconceituosa: "Quando eu fiz minha transição, ela falou que achou ridículo, que eu não devia ter feito isso", lembra. "Ela acabou comigo, fez eu me sentir mal, porque eu não esperava isso de uma pessoa que eu tanto amava".
Se em casa já foi assim, na rua a servidora pública já sofreu violência física. "Quando eu era menino ainda e estava na transição, eu levei um murro no olho no meio da [Rua da] Consolação, do nada". Um grupo de jovens passava e um deles a agrediu. "Quando eu cheguei em casa e minha mãe me viu, ela chorava muito, porque eu acho que ela tinha consciência do que eu ia passar na minha vida".
Sobre a situação pelas quais as travestis e transexuais passam, Aline acredita que só a educação pode mudá-la: "Vem de casa, continua na escola, para que essa pessoa chegue nesse mundo sabendo respeitar e sendo feliz". Mesmo com toda a violência, física e psicológica que sofreu, ela diz que acredita que a bondade das pessoas ainda é maior do que toda a intolerância: "eu nunca penso que a maldade é maior do que as pessoas boas que existem".

Foto: Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo