QUAL MARIA ?
O amparo da Lei Maria da Penha a mulheres transexuais, transgêneros e travestis
LEI PARA
Alice Quadros
Ser LGBT não é fácil. Ser o “T” da sigla, deve ser menos ainda. Imagine, então, ser uma mulher transexual em um ambiente como a Faculdade de Medicina da USP? Sim, a que está dando, em 2016, um diploma de médico a um estuprador.
Alice Quadros tem 23 anos, está no terceiro ano do curso de medicina da FMUSP e se assumiu como transexual em seu primeiro ano de faculdade, quando se sentiu pronta, tanto devido a um subsídio teórico quanto à autonomia financeira, para “dar uma voadora no peito da família” e se assumir como é.
Ela começou a perceber que não se encaixava na lógica genitalista que lhe foi imposta aos 11 anos de idade. Para ela, ser trans não é estar insatisfeito com o próprio corpo, ou querer usar determinada roupa, e sim uma reivindicação política dentro de um mundo cisnormativo.
Quando se assumiu, a reação da sua família não foi boa. “A minha mãe, por exemplo, disse que tinha vergonha de mim”, conta. Na faculdade, um segmento grande de alunos a respeita. Enquanto isso, ela sente que existe uma outra parcela que não a aceita, mas que tenta não transparecer.
Mas nem sempre o preconceito é tão velado: ela já sofreu violência física e verbal em sala de aula. “Se dentro da sociedade a transfobia já está presente, dentro de um microcosmo em que as pessoas se sentem impunes, isso fica ainda mais evidente”, analisa Alice, fazendo referência ao aluno Daniel Tarciso da Silva Cardoso, que está sendo acusado por três estupros e provavelmente conseguirá se formar. “Mesmo esse caso de agressão que eu sofri não resultou em nada. Só resultou no fato de que eu levei uma advertência verbal, assim como o agressor, por ter brigado em sala de aula. Eu fui pega pelo pescoço, me jogaram numa cadeira, e eu recebi uma advertência. Isso explica como essa faculdade naturaliza a violência institucional e não faz nada a respeito”, pontua.
Quando questionada sobre as perspectivas devido à atual organização conservadora do congresso nacional, ela cita a colunista e pesquisadora Djamila Ribeiro: “O Brasil nunca foi um país progressista. Ele sempre foi um país conservador, mas que teve umas marolinhas de progressismo. A grande questão é que agora, quando a gente estava aprendendo a surfar, tiraram a prancha da gente. Voltamos para o conservadorismo basal”.
Em relação à sua área de atuação, ela comenta que as pessoas trans sofrem com a invisibilidade. “Não se fala de homens trans na ginecologia, nem de pessoas trans na graduação de forma geral, elas não existem no currículo da área médica”, exemplifica. Segundo a estudante, quando se fala sobre transexuais no universo da medicina, isso ocorre dentro da categoria patologizante, e cita a presença do termo transexualismo na Classificação Internacional de Doenças (CID). “Como profissional da saúde, tenho o compromisso de ser militante: da saúde pública de qualidade e para minorias políticas”, defende.
Para avançar nesse sentido, Alice considera que é necessário produzir um conhecimento que coloque como pressuposto a existência de pessoas trans, de modo que as pessoas cisgêneras, quando conversem entre si, não falem de mulher como sinônimo de pessoa que tem vagina, ou de homem como sinônimo de que tem pênis. Finalizando com um questionamento, ela joga a bomba em nosso colo: “Quantas vezes vocês colocaram como pressuposto a existência de pessoas trans? Eu quero que a minha existência seja legitimada como é preceita a existência de pessoas cis”.
Foto: Marcelo Brandt (http://www.marcelobrandt.com) / G1
